Ditadura da amamentação: isso existe?

Na semana passada compartilhei esse texto sobre Amamentação em Fissuras Labiopalatinas na minha página pessoal. Minha principal intenção foi divulgar e informar que algumas anomalias craniofaciais não são impeditivas para o aleitamento materno. De um modo geral, a aceitação foi muito boa, mas houve quem dissesse que estamos vivendo a “ditadura do aleitamento” e “mães que não conseguem amamentar não são menos mães e merecem respeito.” Num primeiro momento, o coração doeu. Num segundo, a garganta deu um nó. No terceiro, eu sentei aqui para escrever.

Primeiramente, vou esclarecer uma coisa: eu não luto somente pela amamentação. Eu luto pelo DIREITO À INFORMAÇÃO e pelo RESPEITO ÀS ESCOLHAS DAS MULHERES. Pela escolha de não amamentar, inclusive. Porém, todavia, contudo, eu acredito que só se pode escolher, de fato, quando se tem CONHECIMENTO acerca de um assunto. Caso contrário, você só estará sendo movido pela massa e pelo senso comum.

A mãe que amamenta exclusivamente, a que oferece mamadeira por necessidade ou aquela que o faz porque optou fazer são, pra mim, igualmente mães e mulheres. Termos como “menos mãe” ou “mães de verdade” são largamente utilizados nas redes sociais por mulheres para julgar e atingir outras mulheres. Isso é triste, mas é assunto pra outro post…

Voltando ao nosso tema principal, meu papel como profissional da saúde é lutar por aquela mãe que ficou com o seio ingurgitado e sofreu com os sintomas da apojadura porque, ainda na maternidade, disseram a ela que o complemento era a melhor opção porque ela precisava descansar e o bebê mamava “o tempo todo”. Minha luta é pela outra que recebeu seus gêmeos junto com duas mamadeiras no quarto após o parto e se perguntou “que horas eu entro na história?”. Minha luta é pela mãe que não amamentou porque o “leite secou” sem que ela soubesse que existem formas de reverter essa situação. Ou ainda pela outra que foi convencida de que seu leite era fraco e não sabia que isso é mentira. Ou pela outra que desistiu da amamentação porque não teve ninguém pra dizer “calma, vai doer por alguns dias, mas vai passar!”.

Como fonoaudióloga apaixonada pelo trabalho com fissura labiopalatina, é meu papel informar, orientar e apoiar essas mães e também esses bebês!  Atribuir à fissura labiopalatina o insucesso do aleitamento materno é uma análise superficial demais, uma vez que no nosso país apenas 60,3% das crianças chegam ao primeiro mês sendo amamentadas exclusivamente e só 9,3% mantêm o aleitamento materno exclusivo até os seis meses conforme recomendado pelo Ministério da Saúde. No Rio de Janeiro, esse número é ainda menor: 8%.

Eu trabalho com bebês e com fissuras labiopalatais há seis anos. O que observo muitas vezes é que, antes mesmo que tenham a oportunidade de vivenciar a amamentação, ou que possam escolher por tentar amamentar, essas mães já são desencorajadas pela família e convencidas pelos profissionais de saúde que a cercam de que mamar é arriscado para o bebê e/ou inviável por causa da fenda. Você pode nunca ter ouvido o termo broncoaspiração, mas com certeza as mães de fissurados já ouviram e se apavoram só de pensar nele!

Sejamos realistas, claro! Existem, SIM, casos em que o aleitamento materno no seio é difícil por causa da fissura e outros mais sérios em que a alimentação por via oral pode até ser contraindicado. Mas isso não é regra e somente a avaliação criteriosa de um FONOAUDIÓLOGO permite essa conclusão.

Existem, SIM, casos nos quais a produção láctea é diminuída, em que cirurgias prévias de mama inviabilizam a amamentação (a minoria delas!), e outros em que o leite materno é contraindicado (em casos de mães HIV positivo, por exemplo).

Existem, SIM, casos onde a mulher, por questões pessoais, profissionais (ou ambas!) opta por não amamentar!

Mas também existe aquela que “queria muito mas não conseguiu”, a que “queria muito mas o leite não sustentava” entre tantos outros “mas…”. Então, eu não luto pela amamentação a qualquer custo. Eu luto pela sua informação, pela sua liberdade de escolha e pelo seu direito de ser respeitada, seja qual for ela!

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