Leite anterior e posterior existem?

É bem provável que você que está envolvido(a) com o universo da amamentação – seja como profissional ou como mãe – em algum momento já tenha ouvido expressões como  leite anterior e leite posterior. Mas será que eles existem? A resposta é sim! O leite materno é dinâmico e varia sua composição durante a mamada, apresentando-se como um líquido rico em água e lactose em alguns momentos e, em outros, como uma substância com maior teor de gorduras e proteínas.

Que o leite “muda” nós já sabíamos, afinal quem nunca viu a foto de leites ordenhados que mudam de cor, inclusive quando a mãe está doente? O que acontece é uma confusão enorme sobre esses tipos de leite devido aos nomes que foram dados a eles: leite anterior e leite posterior. Tais termos referem-se à tradução das palavras em inglês “foremilk”  – leite da frente ou o anterior – e o “hindmilk”, o leite de trás ou posterior, o que gerou uma associação errônea com o início e o fim da mamada. Com isso, tornaram-se comuns as recomendações para o bebê esvaziar uma mama antes de mudar de peito, com o objetivo de alcançar o leite posterior.

Mas atire o primeiro sutiã quem nunca ficou perdida no “esvaziamento” da mama! Muitas vezes o bebê fica saciado em um seio só. Em outros casos, a mãe tem mamas tão cheias que não as sente completamente vazias. Como saber, então, quando “trocar de peito”?

Pois bem!  Vou tentar não ser chata pra explicar isso, mas precisamos entender bem que o leite é ANTERIOR ou POSTERIOR ao reflexo da ocitocina.

Vamos lá…

Quando o bebê começa a sugar o seio materno, os impulsos elétricos chegam à hipófise ANTERIOR, no cérebro, gerando um estímulo para que a prolactina seja secretada. Consequentemente, a mama é estimulada a PRODUZIR leite.  Algum tempo depois, por meio do toque do bebê, do sentir sugando e do seu cheirinho, a hipófise POSTERIOR é ativada e libera a ocitocina, hormônio responsável pela ejeção (saída!) do leite materno.

À medida que a mama vai se esvaziando e que os reflexos vão ocorrendo, a gordura aderida a alguns alvéolos vai se desprendendo e se incorporando ao leite, modificando sua composição. Esses estímulos surgem diversas vezes DURANTE a mesma mamada e, embora a mama tenha capacidade de armazenar um pouco de leite,  não se pode afirmar que o conteúdo do início da mamada seja sempre o “leite anterior”. De acordo com a frequência das mamadas, com a demanda do bebê e o manejo da amamentação, é possível que logo nos primeiros minutos o bebê já receba um leite rico em gordura e proteínas, que “sobrou” da refeição anterior!

Então devemos ter em mente que, mais importante que se preocupar em esvaziar a mama ou deixar o bebê por tempo pré determinado em cada seio, é focar na livre demanda, em uma boa técnica de mamada, nas respostas e reações do bebê e na tranquilidade do momento, afinal a ocitocina é um hormônio tímido e não combina com relógios nem controles.

 

Referências consultadas:

Elad et al., 2014. Biomechanics of milk extraction during breast-feeding.  Proceedings of the National Academy of Sciences 111(4): 5230 – 5235.

Mello Jr., W. & Santos, T, M. Anatomia e Fisiologia da lactação. In: Amamentação, bases científicas. 4ª. Ed. 2017. 943pp.

 

Outras sugestões de leitura:

http://www.aleitamento.com/amamentacao/conteudo.asp?cod=2198

https://pediatriadescomplicada.com.br/2015/05/14/amamentacao-leite-anterior-e-leite-posterior-existe/

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