Pela valorização do colostro!

Tão pouco valorizado, o colostro – aquele leite dos primeiros dias – é comparado a uma vacina altamente personalizada. Se fosse possível fabricá-lo em laboratório, com exclusividade para cada mãe e cada bebê, já pensou quanto custaria? Pois é, no peito ele é feito “de graça”.

Aliás, pra quem não sabe, o colostro é leite! O leite materno, como substância viva que é, modifica-se de acordo com o estado da mãe (de gestante a recém-parida) até a maturidade do leite, num processo chamado lactogênese.

Mas você sabe o que é esse “ouro líquido”? É um fluido amarelado, viscoso, com um volume variável de 2 a 10 ml por mamada, que apresenta relação com a paridade da mãe – se a mãe já pariu mais de uma vez, tende a produzir mais colostro! Rico em proteínas e com alta concentração de fatores imunes, como IGA, linfócitos T e B e macrófagos, tem menor concentração de lactose e de gordura que o leite maduro e é o principal leite até o terceiro dia de vida do bebê. Sua oferta ao recém-nascido nos primeiros dias é de extrema importância, pois os níveis de anticorpos do colostro caem rapidamente, chegando a 20% da concentração inicial em 72h após o parto.

A duração do colostro ainda não é bem definida, mas especula-se que ele acompanhe a lactação até o quinto dia de vida pós-parto, quando o volume de leite já é maior. Entre o 3º. e o 5º. dia de vida, a mistura de colostro e leite é chamada de leite de transição, que acompanhará o processo de lactação até aproximadamente a segunda semana de vida do bebê. A partir daí, o leite torna-se maduro, com aumento da fração de gordura e de lactose.

Entender este processo nos leva a compreender que o colostro é produzido “sob medida” para o tamanho do estômago de um recém-nascido, que alcança entre 5 e 7 ml no primeiro dia de vida, chegando a uns 20 ml no terceiro dia de vida. Se compararmos estes dados com os de volume de colostro, conseguimos entender porque a dança do aleitamento é tão perfeita: o colostro que a mãe produz é suficiente para o volume do estômago do bebê. O colostro tem propriedades que aumentam a motilidade intestinal, facilitando a eliminação de mecônio, diminuindo a bilirrubina e, consequentemente, a icterícia neonatal (amarelão).

Além disto, é riquíssimo em oligossacarídeos, moléculas que servem de alimento para as bactérias “do bem” que devem colonizar o intestino do bebê e o protegem de infecções de bactérias patogênicas.

Então, gente, precisamos saber algumas coisas: o colostro foi feito para não ser visto!  Não é de fácil ordenha e vem em pouco volume justamente para que a ingestão de pequenas quantidades por vez, gere uma demanda cada vez mais frequente de mamadas, fundamental para estimular a descida do leite.

Quando se dá aquele copinho cheio de fórmula, ainda na maternidade, algumas coisas acontecem: o bebê fica estufado, o intervalo entre as mamadas aumenta e isso provoca o atraso da apojadura. Além disso, a fórmula não tem os oligossacarídeos nem as células brancas vivas, o que pode sensibilizar algumas crianças e favorecer alergias alimentares. Portanto, valorize o colostro, ele é FUNDAMENTAL pra saúde do bebê e para o processo de produção do leite maduro.

 

 

Referências consultadas:

Dias, M.C. 2019. Características nutricionais do leite materno. In: Perilo, T V C. Tratado do Especialista em Cuidado Materno Infantil com Enfoque em Aleitamento Materno. Belo Horizonte: Mame Bem. p. 107 – 115.

Hascke  et al.  2016. Breastmilk: Nutritive and Bioactive Proteins. Ann Nutr Metabol, 69 (2): 17 – 26.

Newman, J. & Pitman, T. 2011. Lactancia: todo ló que necesitas saber. Library and Archives Canadá, 506 pp. ISBN 978-0-9813293-1-4.

 

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