Por que os fanhos são fanhos?

Dependendo da sua idade, você se lembra muito bem da atriz Fran Drescher, estrela do seriado The Nanny, sucesso nos anos 90. Talvez não esteja claro pra você, em um primeiro momento, a cara dela, ou da personagem, ou até mesmo da série… mas se você viveu a televisão dos anos 90, reconhece a voz dela em qualquer lugar!

E, não, ela não é uma soprano, não tem voz de anjo, não é cantora famosa. A característica mais divertida e inconfundível da atriz é sua voz completamente anasalada. Se você ainda não conhece nenhuma celebridade fanha… tem uma primeira vez para tudo. 😉

Não achei registros que pudessem dizer se a atriz é realmente fanha ou se usa alguma técnica para emprestar a voz anasalada a seus personagens, mas como seguidora do trabalho dela por anos (e séries, e filmes) a fio, me arrisco a dizer que ela já nasceu assim, com essa voz bem singular.

E por que isso acontece?

Para entendermos a voz fanha, é necessário entender primeiro a voz “normal” e a fala! Voz é o som produzido pelas pregas vocais, que ficam localizadas na região do pescoço, modificado pelas cavidades de ressonância: nariz, boca, trato vocal.  Fala é a articulação de cada som de uma língua e, no português, temos sons orais, nos quais o fluxo de ar é direcionado para a boca, e os sons nasais, nos quais esse fluxo vai também para o nariz.

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Esse direcionamento do fluxo aéreo é feito pelo esfíncter velofaríngeo. Você já reparou na sua “campainha”, aquele “sininho” que está no fundo da garganta quando abre a boca? Pois é! O nome técnico dessa estrutura é úvula. A úvula é um músculo que, juntamente com outros, atua no fechamento da comunicação entre o nariz e a boca durante funções em que o ar precisa ser direcionado para a cavidade oral, por exemplo no sopro, assobio e na fala.

Mas o que causa, então, a hipernasalidade?

A hipernasalidade acontece quando o fluxo de ar para o nariz é maior do que o fluxo para a boca, e vários são os motivos. O mais simples deles é o que chamamos de alterações de ressonância. Ocorre quando a anatomia e funcionamento da musculatura intraoral estão perfeitos, mas a pessoa tem uma articulação inadequada ou se habitua a falar com predomínio do nariz. Um bom exemplo é o cantor Roberto Carlos!

Outros motivos são alterações anatômicas e fisiológicas nesse esfíncter. Uma das mais comuns são as fissuras palatinas, malformações que acontecem ainda no feto e são caracterizadas pela ausência do “céu da boca”. A falta das estruturas óssea, mucosa e muscular adequadas faz com que o ar escape para a cavidade nasal durante a fala, dando a impressão de que o som está saindo pelo nariz da pessoa, e não pela boca. E é exatamente isso que ocorre!

Nesses casos o tratamento é cirúrgico, devendo acontecer preferencialmente na infância, antes da aquisição de fala. Em alguns casos, além do procedimento cirúrgico é necessária também a fonoterapia, a fim de que sejam feitas as correções na fala.

A extração de tumores na região ou até mesmo questões neurológicas também podem afetar a voz, sendo que nesses casos a melhor opção de tratamento pode ser o uso de próteses.

Ser fanho pode não estar, digamos, na moda, mas não é uma coisa da qual se envergonhar. Muita gente fica sem graça de se expressar publicamente por conta dessa situação, mas precisamos divulgar que o tratamento existe e pode ser muito eficaz. No Brasil existem vários centros de referência no tratamento de fissuras labiopalatinas, com equipes multiprofissionais especializadas no assunto. Portanto, se você não está satisfeito com sua fala ou estética, procure ajuda!

E você, que não sofre com o problema, ajude a divulgar informação, combater o preconceito e espalhe por aí que voz fanha não tem graça, tem tratamento!

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