Relato de parto: uma carta para Luísa!

Meu relato de parto: uma carta para Luísa!

“Anjo meu
Permita-me ser
graciosa com você
mais do que sempre fui
desnude sua alma
para termos uma existência
em conjunto
com menos mistério
plenos de amor e confiança
eis a base de nossa aliança”

                                            (desconheço o autor)

 

Vinte e nove de setembro: dia de todos os Arcanjos. Dia do parto normal (comemorado pela primeira vez!). 39 semanas e 5 dias.

Eu passei boa parte do tempo te gestando em pontes aéreas: morando em Belo Horizonte, trabalhando no Rio e percorrendo o Brasil com os cursos e congressos, esperava ansiosa pelo momento em que poderia passar o tempo sentada na cadeira de balanço, ouvindo músicas, conversando com você e pensando na decoração do quarto. Foi com 29 semanas que comecei a pensar na história que escreveríamos juntas…

Quando procurei o Instituto Villamil estava com 34 semanas de gestação. Tinha acabado de ouvir do médico que me acompanhava que optar pelo parto normal após uma cesárea prévia seria um risco de vida, que não esperaríamos a bolsa romper e que o mais seguro para nós duas seria agendarmos uma cirurgia. Convicto no discurso, ele pode já ter convencido muitas mulheres com suas verdades. Mas não a mim, uma amante da ciência e de suas evidências…

Embora munida de informações, confesso que na primeira consulta com a nova equipe ainda não tinha clareza de qual caminho sonhava para o seu nascimento. Sabia apenas que desejava aguardar seu tempo, que queria ao meu lado uma equipe disposta a me apoiar em qualquer decisão e que fosse comprometida, acima de tudo, com um nascer respeitoso.

Desde o primeiro ultrassom, sentia que você viria no dia 29 de setembro. Quando chegou o dia 28, um sábado à noite, eu ainda não sentia nada de “estranho” aqui dentro! Pensei que estivesse errada no meu palpite e, então, eu, seu pai, sua irmã e sua prima saímos para tomar um sorvete e ir ao teatro. De repente, durante a peça – um musical da Turma da Mônica – comecei a sentir uma cólica leve e tive certeza: você estava a caminho…

Durante a madrugada, as “cólicas” viraram contrações que vinham a cada 10 minutos e duravam cerca de 30 segundos (que pareciam intermináveis 30 minutos)! Me lembrei que na consulta de pré-natal com a enfermeira obstetra, a querida Ana, ao perceber meus receios e minha vontade de ter tudo sob controle, disse: “seu papel é suportar as contrações, ouvir o que seu corpo fala! O resto, deixa com a gente!”. E assim, a cada contração eu fechava os olhos, respirava fundo e repetia como um mantra: “ já vai passar, são só algun segundos…”.

A noite foi longa, mas consegui dormir em alguns momentos! Quando amanheceu, entrei em contato com a equipe e com meus pais, para que pudessem buscar a Larissa que, como tinha feito sempre nos últimos dias, ja havia acordado perguntando “é hoje que minha irmã vai escolher nascer?” . Tomamos um café gostoso em família, me deitei um pouco e Carol, minha doula, pelo whatsapp fazia de tudo pra que eu me sentisse amparada, acolhida e assistida. Me orientou a entrar para o chuveiro, a acalmar a casa, o coração, o marido! Enquanto isso, Ana estava a caminho da minha casa e dra. Renata, minha obstetra, já resolvia as burocracias para que eu pudesse ir para o hospital no momento certo. Havíamos combinado previamente que tentaríamos retardar essa ida o máximo possível, a fim de diminuirmos as chances de procedimentos desnecessários (e isso fez toda a diferença!!).

Em casa, estava sendo cuidada pelo seu pai, seus avós e, principalmente, pela sua irmã, que na noite anterior sonhou que você tinha nascido! A cada contração eu fechava os olhos, respirava e recebia dela carinhos, beijos e o sorriso radiante de quem entendia que aquela dor que a mamãe estava sentindo era sinal de que você finalmente estava chegando! Pensei em tirá-la de casa para que pudesse ter mais privacidade ou para que não se impressionasse tanto, mas ela compreendeu tão bem o que acontecia e o clima estava tão leve que vê-la participando com tanta doçura desse momento só elevou meus níveis de ocitocina!

Próximo ao meio dia, Ana chegou na minha casa e me avaliou: 7cm de dilatação! Uau! Não imaginava e a notícia me deixou bem animada! Combinamos que eu poderia almoçar e iríamos juntas para o hospital às 13h30. Almocei uma comidinha feita pela minha mãe, novamente entrei para o chuveiro para “me arrumar” e, a partir daí, como se uma chave se virasse, os intervalos entre as contrações começaram a ficar mais curtos e elas cada vez mais intensas.

De repente, me senti muito inquieta. Comecei a ter um pouco mais de pressa para sair de casa. Queria ir logo para o hospital, que era bem próximo, e falei com seu pai que pediria uma cesárea assim que chegássemos lá. Apesar da dilatação avançada, você ainda estava bem alta, a bolsa não tinha rompido e a ideia de passar várias horas sentindo aquela dor cada vez mais intensa me angustiava demais. Ao chegar, ao me ver na sala de parto e ao relembrar tudo que vivenciei na minha primeira experiência, eu quis desistir. Chorava e repetia para a equipe que já havíamos esperado seu momento e que, pra mim, isso bastava. O mais importante era ter você rápido em meus braços de um modo respeitoso, independente da via de parto. Chorei os medos, as tensões, as frustrações anteriores. “Eu não quero, eu não quero”, dizia repetidamente para todos como se tentasse convencer a mim mesma. Mas não era falta de vontade e sim, talvez, falta de coragem…

E foi aí que percebi a importância de estar com uma equipe que estava unida a mim não só pelos vínculos profissionais, mas por um propósito.

“…desnude sua alma
para termos uma existência
em conjunto…”

Seu pai, a todo tempo apoiava minhas decisões, queria me ver bem e se superava fazendo questão de acompanhar tudo de perto! A equipe, de modo muito carinhoso, acolhia meus sentimentos e me incentivava a repensar minha decisão (exatamente como combinado no plano de parto!). Em meio a lágrimas, topei os exercícios na bola, recebi massagem, acupuntura, florais, carinho. Carol, com toda a sua doçura, me aconselhou a colocar pra tocar a playlist que tinha preparado pensando em você e pendurou pelo quarto presentes, cartões e objetos com significados muito especiais. Que alegria era, nos poucos momentos em que abria os olhos, me deparar com um quarto que emanava amor!

Não sei quanto tempo passei ali, sentada na bola, conversando, sorrindo e chorando até que as contrações ficassem quase insuportáveis. Embora já tivesse desistido da cesárea, nesse momento pedia muito pela analgesia. Foi quando me sugeriram a banheira. Com um pouco de resistência aceitei entrar e a água quente pareceu um abraço de alívio! Ali, de olhos fechados, me concentrava em mim, na respiração, em nós. Não sei quanto tempo mais se passou. Só me lembro de ouvir ao longe palavras de incentivo para que eu tivesse coragem, para que lhe permitisse escrever a sua história e para que te desse a oportunidade de escolher como chegar ao mundo. Me lembro de lerem para mim as mensagens escritas pelas minhas amigas no dia do Chá de Bençãos que organizaram uma semana antes, das palavras de carinho do seu pai, que permanecia ali do lado apoiando minhas escolhas.

Me concentro na música tocando… “Agora quero ver você nascer, agora somos eu e você…” Vieram os puxos e de repente uma sensação de calor que parecia percorrer todo o corpo. Lembro da voz surpresa da Ana perguntado baixinho: “ela disse que está queimando?” De alguma forma, percebi que aquilo era bom! Ela, então, pediu para novamente ouvir o seu coração e ali, na água, percebemos quão perto você já estava! Ainda assim, insisti na analgesia. Dra. Renata disse que iria me examinar para chamar o anestesista, mas o que eu ouvi foi um “ela já está aqui…”. Nesse momento, senti alegria, alívio e até raiva! “Agora não vai dar mais tempo de a analgesia fazer efeito” – disse pra elas um pouco brava!

Faltava tão pouco! Quando me dei conta disso senti meu coração disparado, olhei para seu pai, sorri e, três contrações depois (eu acho!), você veio e a dor se foi! Lembro da emoção nos olhos dele, do abraço que me deu, do sorriso de alívio e das batidas fortes do meu coração ao te pegar ainda tão quentinha. Você estava ali, nos meus braços, me olhando nos olhos e sorrindo (ai de quem disser que foi reflexo!). Não era mais um sonho, era nossa história. Tive vontade de chorar, de sorrir, mas principalmente de te agradecer. Te dei as boas vindas e ficamos ali abraçadas, sem pressa, sem ninguém te tirar de mim. Seu pai cortou o cordão umbilical! Logo ele, que por diversas vezes se mostrou tão receoso em fazê-lo, superou esses e outros limites para estar com a gente nesse momento.

Entre a chegada no hospital e o seu nascimento se passaram pouco mais de três horas. Foi um parto rápido no tempo cronológico, mas que durou o suficiente para trazer profundas transformações. Você, cujo nome significa “guerreira gloriosa”, chegou em um VBAC natural, na água, cercada de amor e respeito, me fazendo vencer a maior de todas as batalhas: eu mesma. Foi uma travessia, com alguns momentos mais escuros, mas com uma família e um #dreamteam que me mostrou as flores no caminho e a beleza que estaria por vir se eu me permitisse cruzar a linha de chegada. Obrigada por essa oportunidade, filha, e por esse sonho realizado. Seja bem vinda, Luísa!

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